Fazia tempo que eu não escrevia sobre filmes. Bem, não tinha motivos. Nunca escrevo sobre grandes filmes, mas sobre filmes que me tocam, de alguma forma, sejam grandes ou não. Nem sempre o melhor é o que mais carrega sentido para nós. Coisas pequenas... sim, minúsculas, podem carregar todo sentido. Escrevo sobre como vi os filmes, não sobre eles mesmos.
Vi Sete Vidas ao lado da Paula, alguém cuja passagem pela minha vida deixará cicatrizes onde havia feridas, tal qual bálsamo. E ela nunca, de fato, passará, mas nada será como antes. E chorei, copiosamente, para usar uma palavra antiga. Minha separação, recente, tinha me colocado diante de um ser focado no seu próprio prazer, incapaz de fazer qualquer coisa por mim e que tinha me desrespeitado, como homem e como marido. Qualquer gesto de generosidade, de altruísmo me capturava, gravemente.
Filmes falam de coisas grandes, às vezes de forma pequena. Os que falam de coisas pequenas não merecem ser incluídos na categoria cinema. Sete Vidas fala de altruísmo, de forma hollywoodiana. Não é, como filme, lá grande coisa. Piegas, por vezes; grandioso em certas cenas. Filme feito para estimular, como ensina Adorno, sentimentos, não para representar sentimentos. Não é, também, dos piores, com certeza. Só não é grande, como Gran Torino.
Entregar-se a si mesmo, em pedaços, como sugere o nome original de Sete Vidas (Seven Pounds) até o limite da vida, apenas para se redimir, é ato extremo, irreal, nobreza a moda de hollywood. Eu sou piegas; andava piegas e emotivo. Todo sentido estava ali, à frente e ao lado.
Gran Torino é mais recente. Minha pieguice aplacada, emoções representadas, personagem forte (Walt Kowalski), direção segura e bom texto. Um grande filme, muito maior que o premiado Quem quer ser um milionário. Kowalski, um veterano da guerra na Coréia, perde a esposa e inicia um caminho de redenção. Conhece Thao, um coreano radicado nos Estados Unidos que tenta roubar seu Gran Torino 1972. Com ele, vai purgar seus pecados cometidos na guerra, vai criar vínculos afetivos com a família coreana do jovem, por quem nutria apenas desprezo, fundado em preconceito. Mas será com aquelas pessoas que ele vai estabelecer vínculos familiares, como nunca conseguiu ter com seus próprios filhos.
Tudo gira, aparentemente, em torno do Gran Torino, mas filmes falam de coisas grandes. O Gran Torino não se enquadra nesta categoria. O filme trata de redenção. Diferente de Sete Vidas, o personagem central não é reto, decidido desde o princípio a fazer o que vai fazer ao longo de todo filme. Ele muda. Kowalski se entrega como o cordeiro de Deus, confesso, pronto para o sacrifício que trará algum prêmio. Mas ele próprio já foi salvo, já foi perdoado. Doente, em vias de morrer, antecipa sua morte para dar algum sentido a ela.
O Gran Torino é legado, em testamento, ao jovem Thao. Mas o carro é apenas um adereço. Ele carrega algo maior: o amor de uma nação pelos automotores e, cheio de sentido, é o ícone do amor de um velho veterano de guerra por um jovem coreano, que o salvou.
Tão ternamente
A história
Nada mais
É o que você vê
Ou o que você fez
Ou o que soubemos
Permanecendo forte
Lidando com tudo
Na sua pele, só imaginando
Gerando na boca carinhosos suspiros
Suspirando pelo meu Gran Torino
Apitando pelo pneu uma canção
Motor ligado e melhores sonhos crescem
Eu trancado dentro do Gran Torino
Ele bate um ritmo solitário a noite toda
Ele bate um ritmo solitário a noite toda
Aqui sou deus. Crio personagens, invento enredos, narro fantasias que vivi, em carne e osso, mas vocês nunca saberão, com certeza, os limites da fábula. Tudo aqui é real, mas nada é. Eu mesmo sou um personagem que inventei.
23 de ago. de 2009
19 de ago. de 2009
Dói porque estou vivo
Para ti
Às vezes a dor é lancinante. Minhas rugas se aprofundam. Minhas cãs proliferam. Meu corpo treme, como se tivesse sido cortado fundo. Mas não há corte. Meus olhos latejam, ardem, molham meus gritos. Brotam a mais pura e mais amarga substância, feita só de sofrimento. Então desejo morrer. Ninguém tem piedade. Continuo vivo.
Dura pouco este sentimento. Recobro a consciência e prefiro viver assim, doendo, a não viver. Lembro de Adélia Prado, que queria ficar com a cara mais enrugada que maracujá de gaveta, de tanto sofrer, de tanto amar. Dói porque estou vivo. Agradeço ao universo.
Não importa o quanto me firam. Quando cansar destas dores, estarei morrendo. Então, não blasfemo mais contra a vida. Meu coração é um mundo. Eu invento os monstros que podem assombrá-lo. Do mesmo jeito como os crio e a eles me afeiçôo, posso matá-los. Mas ninguém chegou perto do meu lado que sangra sem minha permissão.
Então, segue em paz, sádica. Você só existe para me lembrar que sofrer é parte da vida. Você só existe porque eu quis.
Ps.: Escrito há muito, muito tempo para alguém cujo nome deixei de mencionar até que esqueci.
Às vezes a dor é lancinante. Minhas rugas se aprofundam. Minhas cãs proliferam. Meu corpo treme, como se tivesse sido cortado fundo. Mas não há corte. Meus olhos latejam, ardem, molham meus gritos. Brotam a mais pura e mais amarga substância, feita só de sofrimento. Então desejo morrer. Ninguém tem piedade. Continuo vivo.
Dura pouco este sentimento. Recobro a consciência e prefiro viver assim, doendo, a não viver. Lembro de Adélia Prado, que queria ficar com a cara mais enrugada que maracujá de gaveta, de tanto sofrer, de tanto amar. Dói porque estou vivo. Agradeço ao universo.
Não importa o quanto me firam. Quando cansar destas dores, estarei morrendo. Então, não blasfemo mais contra a vida. Meu coração é um mundo. Eu invento os monstros que podem assombrá-lo. Do mesmo jeito como os crio e a eles me afeiçôo, posso matá-los. Mas ninguém chegou perto do meu lado que sangra sem minha permissão.
Então, segue em paz, sádica. Você só existe para me lembrar que sofrer é parte da vida. Você só existe porque eu quis.
Ps.: Escrito há muito, muito tempo para alguém cujo nome deixei de mencionar até que esqueci.
16 de ago. de 2009
As mãos do artesão ou A arte de vencer a morte
Vou a ti, vestido de branco. Pureza é o que posso te levar. Meu coração sofre, puro, a mais sincera saudade de ti.
Vou a ti, lembrando das tuas mãos fortes, da cabeça sem fios, do sorriso raro, que ocupam toda a minha memória.
Vou a ti, ver-te pela última vez, depois de ter acreditado que teria tempo, de ter desistido de me preparar para tua morte.
Vou a ti, retrato de mim mesmo, agora que sou a segunda geração, pois tua partida lembra a minha, pois morro um pouco contigo.
Minha alma carrega as marcas dos teus dedos fortes, das tuas mãos gigantes, do teu coração amável. Tua história nunca me abandorá, nunca deixarei de esquecer que sou parte de ti, que sou a história que escrevestes, que sou seu filho em dobro, seu primeiro neto.
Vou a ti, como quem procura um anjo, um norte, um sentido para existir. Tu estás lá, exemplo de vida. Aceito, mas nego tua morte, pois vives comigo, em mim, no que sou. Sou eterno perante ti; em mim, tu se eterniza também.
Ele morreu perante mim, mas eu nunca vou morrer perante ele. Eu sou eterno para meu vô, cujas marcas em minha personalidade são indeléveis como as ranhuras das mãos do artesão no barro que ele transforma em arte. Assim, ele vence a morte de dois jeitos em mim: pelo que carrego dele eternamente e porque ele nunca terá que ver minha morte. Assim, eu o prolongo, eu o eternizo.
PS.: Meu vô morreu em 17 de abril de 2009, menos de uma semana depois da última vez que eu o vi vivo. Ele melhorou na quarta e pediu a camisa que dei para ele, para sair do hospital. Reclamou que tinha uma boa camisa, mas não um bom sapato. Disse que eu dei um "presentão" para ele (a camisa e o pijama). Nunca usou nenhum. Na quinta ele piorou. Sexta viu o único filho de quem não tinha se despedido. Menos de uma hora depois, morreu.
Vou a ti, lembrando das tuas mãos fortes, da cabeça sem fios, do sorriso raro, que ocupam toda a minha memória.
Vou a ti, ver-te pela última vez, depois de ter acreditado que teria tempo, de ter desistido de me preparar para tua morte.
Vou a ti, retrato de mim mesmo, agora que sou a segunda geração, pois tua partida lembra a minha, pois morro um pouco contigo.
Minha alma carrega as marcas dos teus dedos fortes, das tuas mãos gigantes, do teu coração amável. Tua história nunca me abandorá, nunca deixarei de esquecer que sou parte de ti, que sou a história que escrevestes, que sou seu filho em dobro, seu primeiro neto.
Vou a ti, como quem procura um anjo, um norte, um sentido para existir. Tu estás lá, exemplo de vida. Aceito, mas nego tua morte, pois vives comigo, em mim, no que sou. Sou eterno perante ti; em mim, tu se eterniza também.
Ele morreu perante mim, mas eu nunca vou morrer perante ele. Eu sou eterno para meu vô, cujas marcas em minha personalidade são indeléveis como as ranhuras das mãos do artesão no barro que ele transforma em arte. Assim, ele vence a morte de dois jeitos em mim: pelo que carrego dele eternamente e porque ele nunca terá que ver minha morte. Assim, eu o prolongo, eu o eternizo.
PS.: Meu vô morreu em 17 de abril de 2009, menos de uma semana depois da última vez que eu o vi vivo. Ele melhorou na quarta e pediu a camisa que dei para ele, para sair do hospital. Reclamou que tinha uma boa camisa, mas não um bom sapato. Disse que eu dei um "presentão" para ele (a camisa e o pijama). Nunca usou nenhum. Na quinta ele piorou. Sexta viu o único filho de quem não tinha se despedido. Menos de uma hora depois, morreu.
13 de abr. de 2009
Poesia marxista
O sol invade. É dia de trabalho. Meu vô compra dobradiças e gasta R$20, muito para quem ganha salário mínimo da Previdência. Mas a pequena bisneta, a mais jovem da prole, merece um guarda-roupas novo.
Os braços doem; as pernas sucumbem. Meu vô não tem forças. Então desiste.
- Tanta madeira boa, e não posso trabalhar, diz.
As ferramentas são os instrumentos de existir no mundo. Não consegue mais manipulá-las. Então se desfaz delas, a preço vil.
Meu vô enterrou três filhos e duas esposas. Seu choro, que não vi, sempre foi contido. Suportou tudo, trabalhou uma vida inteira, regido pelo sol. Meu vô superou cada obstáculo, mas é insuportável não poder trabalhar.
Há um nome que o identifica: Laércio. Eu o reconheço como tal; ele se reconhece no trabalho. Não pode viver sem ele.
Seo Laércio foi internado há uma semana. Alucinava e foi amarrado na cama de um hospital, não distinguia os filhos e netos e chamava os médicos de assassinos. Mas ele não é isso. É, sim, as coisas que fez no mundo e que carregam seu nome: casas, objetos, cadeiras, guarda-roupas, cabos de enxada, uma família e eu mesmo, seu neto. Sou resultado concreto do trabalho do meu vô. Desta forma, eu o humanizo, objetivamente no mundo.
Meu vô nunca leu Marx. Mesmo assim, não gosta dele. Apesar disso, é pura poesia marxista. Pode se despojar de tudo, menos de si mesmo, menos de ser trabalho não alienado, de poder se realizar como homem pela força das próprias mãos. Não poder transformar seu meio o brutaliza.
Olho em volta e vejo as marcas das mãos fortes do meu vô em tudo. Indeléveis, os sinais impedem que as coisas que ele fez sejam fetichizadas. Em mim, que continuo sua obra, os sinais começam fora e se estendem até minha alma, triste neste momento porque há um pedaço de mim que sofre num leito de hospital.
Ele me vê e os olhos enchem de lágrimas. Já está bem melhor. Me cobra uma camisa que não lembro ter prometido. Não importa. Ontem, fui vê-lo mais uma vez, com um pijama novo e uma camisa bonita, listrada, moderna, que ele próprio jamais compraria.
- É para o senhor usar quando sair do hospital, vô.
Os braços doem; as pernas sucumbem. Meu vô não tem forças. Então desiste.
- Tanta madeira boa, e não posso trabalhar, diz.
As ferramentas são os instrumentos de existir no mundo. Não consegue mais manipulá-las. Então se desfaz delas, a preço vil.
Meu vô enterrou três filhos e duas esposas. Seu choro, que não vi, sempre foi contido. Suportou tudo, trabalhou uma vida inteira, regido pelo sol. Meu vô superou cada obstáculo, mas é insuportável não poder trabalhar.
Há um nome que o identifica: Laércio. Eu o reconheço como tal; ele se reconhece no trabalho. Não pode viver sem ele.
Seo Laércio foi internado há uma semana. Alucinava e foi amarrado na cama de um hospital, não distinguia os filhos e netos e chamava os médicos de assassinos. Mas ele não é isso. É, sim, as coisas que fez no mundo e que carregam seu nome: casas, objetos, cadeiras, guarda-roupas, cabos de enxada, uma família e eu mesmo, seu neto. Sou resultado concreto do trabalho do meu vô. Desta forma, eu o humanizo, objetivamente no mundo.
Meu vô nunca leu Marx. Mesmo assim, não gosta dele. Apesar disso, é pura poesia marxista. Pode se despojar de tudo, menos de si mesmo, menos de ser trabalho não alienado, de poder se realizar como homem pela força das próprias mãos. Não poder transformar seu meio o brutaliza.
Olho em volta e vejo as marcas das mãos fortes do meu vô em tudo. Indeléveis, os sinais impedem que as coisas que ele fez sejam fetichizadas. Em mim, que continuo sua obra, os sinais começam fora e se estendem até minha alma, triste neste momento porque há um pedaço de mim que sofre num leito de hospital.
Ele me vê e os olhos enchem de lágrimas. Já está bem melhor. Me cobra uma camisa que não lembro ter prometido. Não importa. Ontem, fui vê-lo mais uma vez, com um pijama novo e uma camisa bonita, listrada, moderna, que ele próprio jamais compraria.
- É para o senhor usar quando sair do hospital, vô.
3 de abr. de 2009
As regras da atração
Por que vi nela uma musa? Não sei. Não compreendo as regras da atração. Um dia, alguém vai escrever um livro de auto-ajuda sobre elas. Mentirá. Ninguém compreende o que faz um corpo tremer diante de outro.
Há indícios. Beleza, simpatia, charme, inteligência, posição social, cobiça coletiva, sensualidade, dinheiro, poder. Mas tudo isso não explica porque duas mulheres igualmente belas, igualmente inteligentes, iguais em tudo, ou quase, me atraem de formas tão diferentes. Por uma, meu corpo suplica. A outra é apenas um troféu. Não o quero. Uma me olha e me leva ao paraíso, satisfeito por pagar no inferno por meus pensamentos. Da outra, nem vejo o olhar.
Não entendo as leis da atração, apenas as respeito, ainda que limitem minhas escolhas e as tornem, por vezes, incompreensíveis. O desejo é rei, caprichoso, cheio de decisões estranhas. Não vasculho seus pensamentos insondáveis. Apenas me curvo à sua força, à sua sedução. Posso até me negar a seguir seus caminhos, mas não posso seguir os caminhos que ele nunca me indicou. Este rei oblitera meus passos. E, sem ver, tento me guiar segundo minha própria consciência. Tateio a razão; tu ofereces cheiros, sensações, sons e imagens. Sou um pobre cego, meu senhor!
Não rezo sem ti, mas temo-te e, por isso, por vezes não digo amém. Provei seu paraíso, mesmo sem entender suas leis. Mas, mesmo fiel a ti, temo me curvar a todos os seus caprichos. Pois que és irmão do desespero, como sempre soube, até quando não pude evitar. A cor da vida brilha nos teus olhos, mas acautelo-me. Nunca sei, de fato, quando vais me entregar a teu fratelo.
Há indícios. Beleza, simpatia, charme, inteligência, posição social, cobiça coletiva, sensualidade, dinheiro, poder. Mas tudo isso não explica porque duas mulheres igualmente belas, igualmente inteligentes, iguais em tudo, ou quase, me atraem de formas tão diferentes. Por uma, meu corpo suplica. A outra é apenas um troféu. Não o quero. Uma me olha e me leva ao paraíso, satisfeito por pagar no inferno por meus pensamentos. Da outra, nem vejo o olhar.
Não entendo as leis da atração, apenas as respeito, ainda que limitem minhas escolhas e as tornem, por vezes, incompreensíveis. O desejo é rei, caprichoso, cheio de decisões estranhas. Não vasculho seus pensamentos insondáveis. Apenas me curvo à sua força, à sua sedução. Posso até me negar a seguir seus caminhos, mas não posso seguir os caminhos que ele nunca me indicou. Este rei oblitera meus passos. E, sem ver, tento me guiar segundo minha própria consciência. Tateio a razão; tu ofereces cheiros, sensações, sons e imagens. Sou um pobre cego, meu senhor!
Não rezo sem ti, mas temo-te e, por isso, por vezes não digo amém. Provei seu paraíso, mesmo sem entender suas leis. Mas, mesmo fiel a ti, temo me curvar a todos os seus caprichos. Pois que és irmão do desespero, como sempre soube, até quando não pude evitar. A cor da vida brilha nos teus olhos, mas acautelo-me. Nunca sei, de fato, quando vais me entregar a teu fratelo.
Assinar:
Postagens (Atom)