19 de jun. de 2006

Contra a opinião do público

É provável que José Janene (PP-PR) seja absolvido da acusação de recebimento de dinheiro do valerioduto. É possível também que não. Vários aspectos particularizam o caso, seja o montante dos recursos, seja o fato de Janene estar, provavelmente encerrando a carreira, seja a fuga incessante do julgamento na Câmara. Mas, mesmo com tudo isso, há uma grande chance do pepista salvar o restinho de mandato e os direitos políticos.
Janene é um caso apenas de um processo que tem significado relevante para entender os meios de comunicação, seus poderes e suas estratégias no jogo político no Brasil. Há um descolamento entre o que fazem os deputados e os ataques da imprensa. É como se fossem mundos alheios.
Da mesma forma, Lula resiste aos ataques e segue, diante da crise político-midiática mais aguda da história da República, na liderança das pesquisas de intenção de votos e com um governo com avaliação muito positiva. A resistência de Lula, que nunca baixou de 30% de intenção de votos, mesmo nos piores momentos, foi a primeira pista: a mídia se descolou da opinião pública, que ela alega representar.
Os advogados da coisa, como diria Adorno, correriam alegar que é assim por que a população é autônoma nas suas decisões, que não é influenciada. Correriam usar o dado como forma de lavar as mãos da imprensa. Alegariam que os meios de comunicação não têm o poder de conduzir a população. Logo, nada do que façam pode ser nocivo, pois a ação final cabe, autonomamente, às pessoas. Esperto, mas falso.
Não é conhecimento secreto, está nos estudos americanos dos anos 60 e nos trabalhos de comunicação política de hoje: os meios de comunicação são mais eficazes em canalizar a atenção da população e predisposições do que em mudar opiniões e comportamentos.
Há sempre idiotas de plantão que não entendem por que as campanhas pelo uso de camisinha não produzem o efeito desejado e tantos ainda transam sem “proteção”. Não faz sentido se é tão razoável e lógico proteger a própria vida. Não falta informação, não há campanha contra o uso de camisinha. Por que, então, não é prática generalizada e leva tanto tempo para as pessoas aderirem?
Exatamente por que os meios têm poder, sim, mas um poder relativo, que se confronta com convicções e comportamentos arraigados, com a desconfiança da população sobre o jornalismo, com a seletividade da recepção, etc. Assim, a imprensa e o povo que ela sempre alega representar dialogam. Os receptores não são uma massa, conduzida pela mídia. Mas também não são os senhores dos meios, que apenas refletem a opinião do povo.
A imprensa no Brasil sempre se deu bem quando conduziu movimentos sociais com a receptividade na população, seja da fatia organizada na sociedade civil, seja da fatia sem relações orgânicas com entidades de representação política.
Assim foi no caso Collor, quando sociedade civil e imprensa caminharam juntos. Além disso, as convicções políticas dos “descamisados” que elegeram Fernando não eram tão sólidas assim, mas o resultado, sobretudo, de uma crença rasa, convicção produzida pelo marketing político.
Bem disse Aécio Neves, no início da crise: Lula não é Collor. Agora, isso está evidente. Os deputados perceberam que os jornais, telejornais e radiojornais não têm o poder de desalojá-los do Congresso. Ou, se têm, é um poder relativo. Eles voltarão na próxima legislatura, beneficiados por uma legislação que personaliza o voto. Se não voltarem, poucos serão os que estarão fora por efeito da campanha midiática. O PT, sim, como partido, será afetado. No PT, cola como ataque a todos do partido as ações de seus integrantes. Em outros partidos, não. São agremiações de indivíduos. A imprensa pode queimar um ou outro deputado. Pode fustigar o Congresso como instituição, mas não pode prejudicar os tantos que vivem na sombra, para quem, vamos e venhamos, pouco importam os apelos dos senhores da mídia para que “votem com consciência”. Lá no rincão onde Janene tem votos, 3 ou 4% da população ainda vota nele, não acredita ou não concorda ou não sabe o que diz a imprensa. Isso basta para que ele seja reeleito e para que a opinião publicada na imprensa não seja tão relevante. Para muitos, é assim.
Janene tem chance. A imprensa cassou Jeferson, assim com cassou Dirceu, contra quem não havia provas, como há contra Janene, mas não tem o mesmo poder sobre o pepista. Além disso, errou na dose, no tom, na avaliação de seu poder. Perdeu o bonde e vai ter que reencontrá-lo para se reinserir no processo eleitoral. Vai ter que recuar, para continuar exercendo seu poder, que é imenso, mas tem seus limites. Vão ter que tirar a máscara de irritação contra o Congresso, cuja parte mais suja sempre apoiou os empresários da área de comunicação. Vão ter que perder o tom afetado quando avaliam que a população é ignorante por não ouvi-la.
Afinal, os otários, no caso, são o público. E o público pode desligar a TV.

7 de jun. de 2006

Trago no peito

Trago no peito
Um coração acanhado,
Arredio,
Desconfiado.

Que de tanta poeira,
Cansou de estrada,
Desvario,
Emboscada.

Coração olha de lado,
Desconfia do perfeito,
Redondo,
Escorreito.

Mas é de tudo ou nada,
Sem medo de ribanceira,
Estrondo,
Fogueira.

Por isso,
Vez ou outra,
Arde.

Dá sumiço,
Não se encontra,
Flutua.

Sem alarde,
Tange a lua.

Já me levou tão longe este coração,
Já trouxe sensação de completude
De viver só por ele, pela sua arritmia,
Pela dessimetria, distorção que ilude.

Agora não tem jeito.
Meu coração não pensa,
Só acha que compensa.

E o sigo, tolo e sábio.
Meu coração é hábil,
Meu dom, meu defeito.

07/06/2006

4 de jun. de 2006

Na escuridão do casulo nasce a borboleta

Em homenagem a meu amigo Ivan, que é fã de Ito Ogami, como eu.

Mais de uma vez, repeti, para me convencer ou para convencer minha ex-namorada, que as pessoas não mudam tanto assim. Era o argumento para explicar por que éramos inviáveis. Tive que mudar, profundamente, para deixar de acreditar nisso e acreditar mais no ser humano.
As pessoas mudam. Por vezes, lentamente, ao longo da vida. Por vezes, tentam preservar coerência e petrificam tudo, inclusive os traços negativos de caráter. Por vezes, as pessoas criam estereótipos de si mesmos e se apegam a eles, como quem precisa de uma identidade, qualquer identidade. Apesar disso, as pessoas mudam.
Há duas formas como as pessoas mudam que são as mais comuns. A primeira, em traumas ou emoções fortes. A morte muda as pessoas, seja de seres amados, seja por terem estado perto demais da morte. A paternidade e a maternidade mudam as pessoas, que jamais, antes, praticaram o amor incondicional e, de repente, amam um ser que nem as reconhece, de início. O casamento muda as pessoas, sobretudo os homens. A morte da minha tia, a Lia, me tornou mais afetivo, para o resto de minha vida.
A segunda forma é mais lenta, em jornadas de conhecimento interior e de resolução de contradições internas. São como o casulo para a lagarta. Quem está no casulo, na escuridão cercado de fios de seda, não percebe a luz lá fora. Por vezes, nem percebe que está mudando. São como a borboleta que esquece que foi lagarta. Na escuridão, é normal ficar confuso, pois o processo é lento e cheio de mudanças que a lagarta não entende direito, mas faz força para entender. Eu passei por isso. Meu amigo Ivan passa por isso.
Para ambos, foi o amadurecimento que leva a aceitar e querer viver relacionamentos estáveis, assumir responsabilidades, não fugir dos planos, nem do futuro. Alguns homens passam por isso. Outros casam sem deixar de pensar como solteiros. Normalmente, acabam separados.
A borboleta se transforma no escuro. A borboleta é símbolo de transformação. Mas só quando se vê borboleta, entende o casulo e percebe a escuridão como um processo, não como a condição da vida. Ou seja, só quando, depois de uma longa jornada, nos vemos diferentes do que éramos, percebemos que estávamos trilhando um caminho, aprendendo algo, amadurecendo.
Tateei muito no escuro, mas agora me sinto pronto. Já tive medo do vento e, como a lagarta, me apeguei a uma folha, um caule, um tronco. Agora, quando o vento bater, vou com ele. Hoje, acredito que as pessoas mudam. A borboleta vê muito mais que a lagarta.

24 de mai. de 2006

Além da casca

Há certos filmes no cinema que parecem falar de algo, por vezes algo simples, algo banal. Alguns, como 007, são isso mesmo, são só o que aparentam na superfície. Outros não. Shyamalan é um diretor especialista nisto. Seus filmes muitas vezes são mal recebidos pelo público, por que são lidos de uma forma, quando são outra coisa, completamente diferente.
Dele, apenas Sexto Sentido agradou o público, por que a aparência do filme, em si, satisfaz. Quem não se impressiona com o final, quando o personagem de Bruce Willis se descobre, ele, o espírito, que não se percebia morto, apesar de tantos sinais palpáveis disso? Sexto Sentido é um filme sobre espíritos? Não. Usa deles, é verdade, para falar de outra coisa: autoconhecimento. A ignorância de si do personagem principal é tal que a audiência também ignora sua condição. Ele, psicólogo, deve conhecer os outros, mas não conhece a si mesmo.
Shyamalan segue pela mesma linha, parecendo falar de uma coisa, mas falando de outra em Sinais, com Mel Gibson. Parece ser um filme sobre ET´s, sobre a invasão do planeta, anunciada por sinais nas lavouras de um pastor descrente. Os “sinais” do título seriam isso. Outro erro. Os sinais são os sinais de Deus. O personagem principal é um pastor que perdeu a fé, por causa da morte da sua esposa. Ele se sente abandonado por Deus ou desconfia que Deus não exista. Por isso, não entende as últimas palavras da esposa nos seus braços. Ele não vê os sinais de Deus, até uma das últimas cenas, quando um ET invade sua casa e pega seu filho. Neste momento, as palavras finais da esposa fazem sentido. Sinais é, acima de tudo, um filme sobre fé. Sobre como a falta de fé cega as pessoas para os sinais divinos.
E, por fim, A Vila, do mesmo diretor, vai pelo mesmo caminho. Parece um suspense, um filme ao estilo da superfície de Sexto Sentido. Quando o monstro que cerca a vila se revela é uma decepção. Como suspense, o filme é um fracasso. Mas nem suspense ele é. É um drama, sobre isolamento, sobre a preservação de valores morais. É uma espécie de antídoto contra as pragas do nosso tempo. Pode ser, como afirmaram alguns críticos, metáfora de um Estados Unidos que ignora o externo. Esta interpretação me parece mais forçada.
Sixteen Blocks, em cartaz atualmente, faz o mesmo. Quem o ler como uma aventura apenas vai se decepcionar com o filme. Na verdade, ele conta como um policial, escoltando um prisioneiro que deve depor no tribunal, muda de postura, se arrepende de coisas que fez, em menos de duas horas. O filme fala sobre a possibilidade do ser humano mudar. Sua mensagem final é clara. Quem não entender isso, não entende o comportamento do personagem principal, interpretado por um Bruce Willis barrigudo.
Este eixo central dos filmes é o que chamamos de argumento. É o eixo de ação. Às vezes, aqueles resumos dos jornais explicam direitinho o argumento de um filme. Mas, na maioria dos casos, ficam na casca. Acreditem: Sixteen Blocks quer dizer, para todos, que um ser humano muda, muito. Mesmo que para isso tenha que passar por experiências dolorosas ou intensas.
Chuck Berry e Barry White são exemplos disso. Eu sou outro.

22 de mai. de 2006

Mau jornalismo no horário nobre

Imagino que a audiência nem perceba. Mas o jornal nacional é capaz de verdadeiras aulas de mau jornalismo, falhando no mais básico da profissão: a checagem das informações. No processo de transição da prefeitura de São Paulo, no começo de 2005, a ex-prefeita, Marta Suplicy, do PT, deixou de pagar, no final de dezembro, uma parcela de cerca de R$100 milhões da dívida da cidade com a União. José Serra, do PSDB, reclamou. A assessoria de Marta confirmou o não pagamento, mas alegou que faltou dinheiro por que o governo de São Paulo, do governador do PSDB Geraldo Alckmin, havia depositado uma verba que cabia à prefeitura em juízo. Isso significa que o dinheiro estaria indisponível até que a pendência jurídica que envolvia os recursos fosse sanada.
O Jornal Nacional contou tudo isso. Aparentemente, um primor de jornalismo. Eis o equívoco. A primeira coisa a fazer diante da alegação de Marta era verificar se havia o tal depósito de fato e se, com ele, a prefeitura teria perdido a capacidade de pagamento. Se houvesse o depósito, é necessário saber o porquê. Eventualmente, o Governo do Estado podia estar jogando com isso para desgastar Marta. Ou não. A audiência não ficou sabendo disso. A notícia se reduziu a “fulano disse X, mas Beltrano explicou X por Y”. Cabia ao jornalista chagar a informação e fazer a matéria completa.
Os jornalistas da Globo estão longe de ser amadores. Muitas vezes, estas gafes são por hábito. Mau-hábito, diga-se. A preguiça profissional é providencial. Fazer jornalismo de verdade dá trabalho. Deixá-lo assim é mais fácil e mais espetaculoso. Fazer mau jornalismo é um hábito da TV. Ela precisa converter a política neste jogo de disse que disse, neste emaranhado onde não se sabe a verdade. A TV busca sempre, na declaração dos políticos, aquilo que converta política num ringue. Se o público percebe a política assim, a TV tem parte de culpa.
A notícia é mais saborosa quando a polêmica é intensa. Os pequenos lapsos jornalísticos também permitem construir uma imagem que tem pouca relação com os acontecimentos. Isso é muito conveniente quando o jornal é um instrumento de poder. Jornalismo bem feito é algo que a Globo faz de vez em quando, para dizer que sabe, para afirmar que o resto tem o mesmo apuro. Saber, sabe mesmo. A questão é se quer.